Confrontados com a extensão e diversidade da obra de Lina Bo Bardi, que abrange da cenografia ao design de móveis, joias e figurinos, optamos por reunir aqui toda a obra arquitetônica construída. Alguns desses edifícios já não existem. Uns, porque foram demolidos, caso da casa do Chame-Chame e do Belvedere da Sé, em Salvador. Outros encontram-se bastante modificados, a exemplo do MAM ou do Centro de Convivência LBA em Cananeia. Por uma questão de espaço, não foi possível publicar aqui alguns desses casos.
Com a decisão de potenciar a obra construída, pensamos que seria oportuno ter, ao lado da nova reportagem fotográfica realizada, um conjunto de desenhos técnicos que ajudassem à compreensão dos espaços e que ao mesmo tempo permitissem ao leitor percorrer estas obras despedaçadas, modificadas e ameaçadas de desaparecer. Os desenhos agora apresentados foram completados, retrabalhados ou mesmo totalmente refeitos, com base em diversos tipos de materiais e na informação existente. Como sabemos, Lina sempre preferiu as aquarelas e os croquis a cores, sem sombra de dúvidas, muito mais expressivos do que qualquer um destes desenhos que ela chamaria de “linguagem cifrada”. A própria Lina nunca se interessou em publicar sua obra, tal como declarou-me na entrevista aqui transcrita.
Entretanto, nossa intenção com os desenhos é realizar um trabalho produtivo, não arqueológico; um trabalho que nos permita observar a obra com atenção e cuidado, mas sem passividade; redesenhá-la para encará-la tal como é: aberta e indeterminada. Somos conscientes do risco que corremos em cometer equívocos. Em todo caso, queremos lembrar que essas arquiteturas, enquanto “organismos aptos à vida”, estão sempre reclamando presença. Nesse sentido, lançamos o convite ao leitor a vir ele mesmo percorrer e experimentar in situ essas obras, que mesmo quando bastante maltratadas, permanecem intactas em sua imensa carga vital e expressiva e em seu maravilhoso poder sugestivo.