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Bolsões de resistência

Um livro de John Berger

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Bolsões de resistência é um compêndio de vinte e quatro ensaios escritos por John Berger entre 1992 e 2000. Cada ensaio representa uma nova experiência de apreensão e compreensão do visível, seja na arte ou na nossa vida diária. Berger explica, através da leitura de obras de artistas tão diversos como Michelangelo, Goya, Degas, Brancusi ou Michelangelo Antonioni e cartas ao Subcomandante Marcos e Leon Kossof, que arte, política são sinônimos de resistência na busca de liberdade, reafirmação do desejo e criação. Berger ajuda e ensina a ver ao mesmo tempo que nos permite respirar. Em nenhum momento diz como devemos ver, mas nos desvenda a sua caixa de ferramenta para que nós mesmos possamos criar nossa própria maneira. Utiliza um vocabulário extremamente simples e poético que transforma a leitura em aprendizagem, em experiência do sensível.

Descrição técnica do livro:

15 x 21 cm
224 páginas
Português
ISBN/EAN: 9788425219351
Brochura
2013
Descrição
Descrição

Detalhes

Bolsões de resistência é um compêndio de vinte e quatro ensaios escritos por John Berger entre 1992 e 2000. Cada ensaio representa uma nova experiência de apreensão e compreensão do visível, seja na arte ou na nossa vida diária. Berger explica, através da leitura de obras de artistas tão diversos como Michelangelo, Goya, Degas, Brancusi ou Michelangelo Antonioni e cartas ao Subcomandante Marcos e Leon Kossof, que arte, política são sinônimos de resistência na busca de liberdade, reafirmação do desejo e criação. Berger ajuda e ensina a ver ao mesmo tempo que nos permite respirar. Em nenhum momento diz como devemos ver, mas nos desvenda a sua caixa de ferramenta para que nós mesmos possamos criar nossa própria maneira. Utiliza um vocabulário extremamente simples e poético que transforma a leitura em aprendizagem, em experiência do sensível.

John Berger (1926-2017) se formou na Central School of Arts de Londres. Começou escrevendo crítica de arte mas logo passou a redigir novela, poesia, teatro e roteiro para cinema e televisão. Colaborou em diferentes projetos com Jean Mohr, Alain Turner, Nella Bielski, John Christie ou sua própria filha Katya.
Índice
Índice

Índice
1. Abrindo um portão
2. Passos em direção a uma pequena teoria do visível (para Yves)
3. Conversa de estúdio
4. A caverna Chauvet
5. Penélope
6. Os retratos de Fayum
7. Degas
8. Desenho: correspondência com Leon Kossof
9. Vicent
10. Michelangelo
11. Rembrandt e o corpo
12. Um pano sobre o espelho
13. Brancusi
14. O Rio Pó
15. Giorgio Morandi (para Gianni Celati)
16. Puxe a outra perna, são os sinais de Deus sobre ela
17. Frida Kahlo
18. Uma cama (para Cristoph Hänsli)
19. O homem de cabelo desalinhado
20. O pomar de Macieiras (carta aberta a Raymond Barre, prefeito de Lyon)
21. Pincéis de pé em potes
22. Contra a grande derrota do mundo
23. Correspondência
I. As garças
II. As garças e as águias
III. Como conviver com pedras
24. Será uma semelhança? (para Juan Muñoz)
Leia um trecho
Leia um trecho
(Extrato)
1

ABRINDO UM PORTÃO

O teto do quarto de dormir é de um azul celeste desbotado. Há dois grandes ganchos enferrujados aparafusados nas vigas, há muito tempo atrás o fazendeiro pendurava neles suas lingüiças e presuntos defumados. É nesse aposento que estou escrevendo. Fora da janela há velhas ameixeiras cujas frutas agora se tornam de um azul-negro, e atrás delas a colina mais próxima forma o primeiro degrau para as montanhas.
Esta manhã cedo, quando eu ainda estava na cama, entrou uma andorinha voando, circulou pelo aposento, viu seu engano e fugiu pela janela. Passou pelas ameixeiras e foi pousar no fio do telefone. Relato esse pequeno incidente porque me parece ter algo a ver com as fotografias de Pentti Sammallahti. Elas, como a andorinha, são uma extravagância.
Tenho algumas de suas fotografias na casa há uns dois anos. Muitas vezes as tiro da pasta para mostrar a amigos que estão de passagem. Habitualmente primeiro eles ficam boquiabertos, depois olham melhor, sorrindo. Contemplam os locais ali mostrados mais tempo do que é habitual com fotografias. Talvez perguntem se conheço o fotógrafo Pentti Sammallahti em pessoa. Ou perguntam em que parte da Rússia foram tiradas. Nunca tentam verbalizar seu evidente prazer, pois é secreto. Elas simplesmente olham melhor e recordam. O quê?

* * *

Em cada uma dessas fotos há pelo menos um cachorro. Isso está claro, e pode não passar de um truque. Mas na verdade os cachorros oferecem a chave para se abrir uma porta. Não: um portão — pois aqui tudo está do lado de fora, fora e além.
Noto também em cada fotografia a luz especial, a luz determinada pela hora do dia ou a estação do ano. É invariavelmente a luz na qual as personagens procuram — animais, nomes esquecidos, uma trilha que leve para casa, um novo dia, sono, o próximo caminhão, a primavera. Uma luz na qual não há permanência, uma luz que não dura mais que um relance. Também isso é uma chave para abrir o portão.
As fotos foram feitas com uma câmera panorâmica, como normalmente se usam para tomadas geográficas amplas. Aqui a amplitude é importante, penso que não por razões estéticas, mas mais uma vez científicas, de observação. Uma lente com foco mais estreito não teria encontrado o que eu agora vejo, e assim teria ficado invisível. O que vejo agora?
Vivemos nosso cotidiano numa troca permanente com o conjunto de fenômenos diários que nos rodeiam — às vezes são muito familiares, outras inesperados e novos, mas sempre nos confirmam em nossas vidas. Fazem isso até quando são ameaçadores: a vista de uma casa incendiada, por exemplo, ou um homem que se aproxima de nós com uma faca nos dentes, ainda nos recordam (urgentemente) nossa vida e sua importância. O que vemos habitualmente nos confirma.
Mas pode suceder, de repente, inesperadamente, e sobretudo nos vislumbres à meia-luz, que percebamos uma outra ordem visível que se intromete na nossa ordem, e nada tem a ver com ela.
A velocidade de um filme de cinema é de 25 imagens por segundo. Sabe Deus quantas imagens por segundo lampejam na nossa percepção cotidiana. Mas é como se nos breves momentos dos quais estou falando súbita e desconcertantemente a gente consiga ver entre duas imagens. Deparamos com uma parte do visível que não nos era destinada. Talvez se destinasse a aves noturnas, veados, furões, enguias, baleias…
Nossa habitual ordem visível não é a única: ela coexiste com outras ordens. Histórias de fadas, duendes, ogros, foram uma tentativa humana de ajeitar-se com essa coexistência. Caçadores têm consciência contínua disso, e dessa forma conseguem ler sinais que nós não vemos. Crianças a sentem intuitivamente, porque têm o hábito de se esconder atrás de coisas. Lá descobrem os interstícios entre os diferentes conjuntos de coisas visíveis.
Cães com suas pernas em disparada, narizes apurados e memória muito apurada para sons, são os peritos de fronteiras naturais desses interstícios. Seus olhos, cuja mensagem seguidamente nos confunde pois é urgente e muda, são sintonizados tanto com a ordem humana quanto com outras ordens visíveis. Talvez seja por isso que em tantas ocasiões, e por diversas razões, treinamos cães como guias.
Provavelmente foi um cão que guiou o grande fotógrafo finlandês ao momento e lugar para fazer aquelas fotos. Em cada uma, a ordem humana, ainda visível, não é mais central, e se afasta um pouco. Os interstícios se abriram.
O resultado é inquietante: há mais solidão, mais dor, mais desamparo. Ao mesmo tempo há uma expectativa que não experimento desde a infância, quando eu falava com cães, ouvia seus segredos, e os guardava comigo.

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