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Indicação do Parceiro: AU sobre o livro Lina Bo Bardi com entrevista com a autora

Por Bianca Antunes- Era 2002 e Olivia de Oliveira tinha uma missão: visitar as obras construídas de Lina Bo Bardi pelo Brasil, ao lado do fotógrafo Nelson Kon.

A dupla passou pela Bahia, por Minas Gerais e por São Paulo analisando o estado das obras na época e como estavam sendo utilizadas pela população - ou como tinham sido modificadas e destruídas, caso do projeto do Belvedere da Sé, em Salvador, substituído por outro que pavimentou todo o espaço. O resultado foi publicado em espanhol pela Editora Gustavo Gili na época e, em 2014, em português, no Brasil, pela mesma editora, com o título Lina Bo Bardi, obras construídas. "Mesmo quando bastante maltratadas, (as obras) permanecem intactas em sua imensa carga vital e expressiva e em seu maravilhoso poder sugestivo", escreve Olivia no livro.

Nascida em São Paulo, Olivia finalizou seus estudos na Universidade Federal da Bahia (1986) e foi a Barcelona, Espanha, fazer seu mestrado e doutorado pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura. Seu doutorado foi dedicado ao trabalho de Lina Bo Bardi, e lhe rendeu outro livro sobre a arquiteta, Sutis substâncias da arquitetura de Lina Bo Bardi (2006), também pela Gustavo Gili, pelo qual recebeu o prêmio do IAB-SP em 2006, foi indicado ao prêmio do Riba (Royal Institute of British Architects) em 2007 e foi finalista ao prêmio Jabuti (2006). Hoje Olivia é sócia do escritório de arquitetura Butikofer de Oliveira Vernay Sàrl, com sede em Lausanne, Suíça.

Nesta entrevista, realizada por e-mail entre São Paulo e Lausanne, o tema foi Lina Bo Bardi, neste mês em que a arquiteta faria 100 anos. Quisemos saber de Olivia sobre a viagem que fez em 2002, as descobertas e surpresas que teve e sobre suas conversas com Lina. O resultado foi uma pequena viagem no tempo - assim como Olivia fez há mais de 12 anos pelo Brasil -, mas dessa vez pelas obras da arquiteta e também por seu modo de trabalhar, de pensar a arquitetura e sua posição entre os arquitetos brasileiros de meados do século 20.

Por que começou a estudar o trabalho de Lina Bo Bardi?
Durante meu doutorado na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona (ETSAB), buscava afinar o tema ainda genérico de minha tese doutoral sobre os arquitetos italianos emigrados ao Brasil na primeira metade do século 20. Queria escolher apenas um deles para me aprofundar. Foi quando, de passagem a São Paulo, consegui entrevistar Lina Bo Bardi. Esse encontro foi muito intenso e importante para mim: era a primeira vez que eu encontraria esta arquiteta que tanto admirava. Ao longo de duas horas, Lina relatou-me com entusiasmo diversos fatos de sua obra e vida, fazendo-me sentir próxima, como se a conhecesse há anos. Ao contrário de todos os preconceitos que veiculavam contra Lina, descobri uma criatura excepcional, luminosa e de rara generosidade. Este encontro foi fundamental pois, se antes dele sua obra já me interessava, o contato com Lina foi suficiente para convencer-me. Saí da entrevista com um único objetivo: dedicar todo meu trabalho de tese doutoral a Lina Bo Bardi e a sua obra.

Como foi a viagem pelo Brasil visitando as obras da Lina? Houve alguma nova descoberta?
Quando terminei minha tese de doutorado em 2001, fui apresentá-la à editora Gustavo Gili em Barcelona com o objetivo de publicá-la e, na mesma ocasião, concordamos que também era importante realizar uma publicação que reunisse o conjunto da obra construída de Lina Bo Bardi, incluindo uma boa cobertura fotográfica, algo até então jamais feito. Assim, além de minha tese doutoral (Sutis substâncias da arquitetura de Lina Bo Bardi, título do livro homônimo da tese publicado em português e traduzido ao inglês numa coedição hispânico-brasileira pelas editoras Gustavo Gili e Romano Guerra), a editora me encarregou a organização de um número especial da revista 2G, que seria publicado em uma edição bilíngue espanhol e inglês nos finais de 2002. O livro Lina Bo Bardi. Obras construídas, que foi lançado em 2014 no Brasil, é a terceira edição deste trabalho feito em companhia do fotógrafo Nelson Kon, há mais de dez anos, mas pela primeira vez publicado em sua versão original, o português. A oportunidade de visitar todas as obras construídas de Lina Bo Bardi em um curto espaço de tempo foi extremamente interessante, possibilitando-me ver relações entre obras e detalhes de obras que eram até então para mim completamente inesperados. Foi como um curto-circuito na minha noção de tempo e espaço.

Você se lembra de algum caso relacionado à Lina vivenciado durante a viagem - com os ocupantes das obras, por exemplo?
Sim, não com uma pessoa mas com um objeto: ao deparar-me com uma série de banquinhos de madeira na capela Santa Maria dos Anjos (Vargem Grande Paulista, SP, 1978). Recordava-me claramente de uma aquarela de Lina com o desenho destes bancos, mas não como mobiliário destinado a esta capela e sim à Igreja do Espírito Santo do Cerrado (Uberlândia, MG, 1978). Na semana anterior, havíamos visitado esta igreja em Uberlândia e lá não havia nenhum sinal da existência dos bancos. Mas a forma deles assemelhava- -se tanto à forma da capela Santa Maria dos Anjos que um parecia feito para o outro. Intrigada, fui atrás de explicações que me levaram à conclusão de que os bancos, apesar de terem sido efetivamente pensados para a Igreja do Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, acabaram sendo realizados para a capela Santa Maria dos Anjos, em Vargem Grande Paulista - que talvez, afinal, tenha inspirado o desenho do banco. Lina havia conseguido deslocar-me jocozamente no tempo e no espaço, uma marca que caracteriza sua arquitetura, sempre livre de datas, de tempos históricos, de amarras e de cronologias inúteis.

No livro Obras construídas (GG), você faz uma relação entre a obra da Lina e o surrealismo - considerado pela geração da arquiteta o último grande movimento artístico-ético. Como você enxerga essa relação, como ela se dá?
O surrealismo procurou superar toda a contradição entre o lógico e ilógico, entre sonho e razão, entre realidade e imaginação ou desejo, liberando o inconsciente e, ao mesmo tempo, domando a razão. Desta forma, liberava-se da crença ideologicamente etnocêntrica e burguesa que distingue e opõe razão-desvario, dia-noite, sonho-vigília, arte erudita- -arte popular, passado-presente etc. etc. A reconciliação entre elementos antitéticos é exaltada na arquitetura de Lina Bo Bardi com vazios pronunciados, percursos dilatados e expressivos elementos de reunião, circulação e passagem. Eles ajudam a compreender a necessidade de uma coabitação solidária entre duas partes aparentemente opostas. Tais lugares de transição assumem um sentido ambíguo, que são ao mesmo tempo uma coisa e outra, em cima e embaixo, grande e pequeno, passado e presente, natural e artificial. Estabelece-se assim uma igualdade, uma reciprocidade, uma reconciliação e intercâmbio entre polaridades em conflito, exatamente como no princípio da gemelliparité observado por Aldo Van Eyck junto ao povo Dogon, onde a realidade sempre se produz em dois planos complementares que se equilibram. Esse princípio é constantemente evocado por Lina ao dramatizar os lugares de transição e passagem. Este é o papel das múltiplas passarelas que atam os dois edifícios do Bloco Esportivo no Sesc Pompeia com características opostas: o "gordo" e o "magro"; o horizontal e o vertical; um com buracos de formas orgânicas mas alinhadas e outro janelas retangulares mas desalinhadas. Outro exemplo é o impressionante vão do Masp. Lina Bo Bardi gostava de citar John Cage que, ao se deparar com o vão do Masp, exclamou: "É a arquitetura da liberdade!". De fato, o vão do Masp é um exato intervalo silencioso da música de John Cage, um lugar de escuta ao outro, aberto ao indeterminado. Motivo nuclear da obra de Lina o intervalo ou o vazio, como elemento intermediário, é o lugar da não repressão a nenhum impulso, dentro do melhor espírito surrealista.

A partir de uma mentalidade provinciana, reacionária e machista, é difícil aceitar posições claras e de vanguarda, principalmente se pronunciadas por uma mulher, além do mais estrangeira e comunista