Indicação do Parceiro: Juan Esteves sobre o livro Olhar! Descobrindo a fotografia

Por Juan Esteves - OLHAR ! Descobrindo a fotografia ( GG Brasil, 2018) do consagrado fotógrafo novaiorquino Joel Meyerowitz foi originalmente publicado como Seeing Things.

A Kid's Guide to looking at photographs (Aperture, 2016), ou seja, destinado a crianças - entre as idades de nove e doze anos como alerta a editora - Uma introdução à fotografia "que pergunta como fotógrafos transformam coisas comuns em momentos significativos." Sem dúvida, não se limita a esta faixa etária. Autor e editores tem um nome mais que significativo na história da imagem, portanto, um livro aberto a todos aqueles que procuram enxergar o mundo com a amplitude de quem busca conhecimento. Ou como o próprio autor salienta, ver o mundo de diferentes maneiras.

Meyerowitz apresenta o trabalho de mestres como os americanos Elliott Erwitt, Helen Levitt (1913-2009), Walker Evans (1903-1975), Mary Ellen Mark (1940-2015) [ saiba mais sobre a fotógrafa no review sobre o livro Tiny streetwise revisited (Aperture, 2015) no link http://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/tiny-streetwise-revis… ] e do próprio Meyerowitz entre muitos outros ( boa parte seus amigos) , onde cada fotografia é acompanhada por pequenos comentários, incentivando o leitor a olhar com atenção e usar sua imaginação para entender conceitos como iluminação, composição e gestual - em resumo, enxergar um mundo diferente através da objetiva.

> NASCIDO NO BRONX EM 1938 , Joel Meyerowitz estudou História da Arte na Ohio State University e nos anos 1960 trabalhou como diretor de arte publicitário. Foi através deste trabalho, vendo as imagens do genial suíço Robert Frank [ saiba mais sobre Frank em http://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/robert-frank-film-wor… ] para um livreto que desenhava, que ele percebeu: “as fotografias poderiam ser feitas enquanto o fotógrafo e o assunto estivessem em movimento." Largou o emprego, pegou uma câmera emprestada e saiu para as ruas de Nova York. Seu livro Cape Light ( Aperture, 1978) já vendeu mais de 100 mil cópias e é um dos clássicos da imagem em cor.

Como não poderia ser diferente, a primeira imagem, do consagrado francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) é a belíssima Saint-Lazare Gare, de 1932. Fotografia que epitomiza toda sua vasta obra. Abre com "Timing é tudo" onde ele faz um paralelo com o "atleta que acerta a bola em cheio, ou o humorista que revela a parte final da piada, fazendo todos a começarem a rir." Descreve o momento da captura, quando o fotógrafo nota o homem correndo para "dar um salto inútil" e que se olharmos mais detalhadamente, veremos as bailarinas no cartaz ao fundo em um salto semelhante. " [ leia mais sobre Cartier-Bresson em http://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/henri-cartier-bresson…, review do livro Henri Cartier-Bresson- Ver é um todo, entrevistas e conversas 1951-1998 (Editora GG, 2015) ].

> “TIMING", segundo o autor, "é ver o que está acontecendo, o que está prestes a acontecer, e onde está acontecendo." Cartier-Bresson, também o viu e compreendeu que esse espelhamento seria percebido por qualquer pessoa que examinasse a fotografia com atenção. O que é nada fácil de fazer, na verdade, completa ele. Assim como, a imagem do americano Eugene Richards, feita no Brooklin em 1993, é um verdadeiro exemplo de como as "Ações e Ângulos" podem apresentar uma maravilhosa geometria. Para ele, a beleza da fotografia se encontra no fato da imagem parecer torta, na organização da ponte, a grade e o prédio. Aqui o poder da imagem está em sua espontaneidade, distante do controle completo do fotógrafo.

“Encantamento" é um tópico cuja representação através da imagem do italiano Luigi Ghirri (1943-1992), feita em Versailles, França, é perfeita. Como um determinado ponto de vista pode mudar a maneira como percebemos um lugar é o mote. Importantíssimas questões como escala, o uso da cor como forma, o jogo entre o real e o irreal. Assim como os franceses usam a expressão Trompe-l'œil (engana olho) como ilusão visual, "fotografias também podem enganar o olho" escreve Meyerowitz. [ leia review sobre o livro Luigi Ghirri, pensar por imagens (IMS, 2013) emhttp://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/as-especula%C3%A7%C3%… ].

> EM ALGUNS MOMENTOS os tópicos parecem mais conceituais, como "Luz e Felicidade", ilustrado pela imagem da americana Sally Gall, simples roupas em um varal que adquirem uma abstração colorida pictórica. Pode parecer hermético, entretanto Meyerowitz está apenas respondendo à pergunta que atormenta a grande maioria dos fotógrafos iniciantes: "como saber o que fotografar", cuja simples resposta é "Fotografe qualquer coisa que o faça parar!" Logicamente um retorno simples para algo bem complexo, mas um start para quem quebra a cabeça atrás de uma "grande ideia". Na maioria dos casos as imagens mais icônicas são bem simples e problematizar não é complicar uma fotografia.

Juntando a simplicidade ao tópico “still life" ( natureza morta) o autor recorre habilmente a outro fotógrafo mítico, o americano William Eggleston, mestre da simplicidade, mas confortavelmente instalado no topo do cânone. A afirmativa, também simples, é que todos os dias pegamos e largamos as coisas e nos esquecemos delas. "Eggleston consegue encontrá-las para nós." Ele comenta a fotografia de uma garrafa de refrigerante sobre um capô de um carro. Seria banal se não fosse ele a registrá-la. Na verdade Meyerowitz está dizendo para olharmos o mundo com atenção e que "as coisas corriqueiras podem guardar mistérios e maravilhas inesperados." [ Leia review sobre o livro William Eggleston-A cor americana (IMS, 2015) em http://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/william-eggleston-a-c… ].

> E como não poderia faltar, o tópico “Divertir-se”, intrínseco ao ato fotográfico. Para tanto seleciona o inglês Martin Parr que em suas viagens faz valer a diferença entre um cartão postal tradicional e uma boa e divertida imagem. O mesmo serve para Elliott Erwitt, cujos cães encontrados nas ruas viram obras de arte em suas mãos. O autor sugere que você tome nota quando reconhecer uma imagem com potencial para o humor. "O mundo está cheio de composições surpreendentes. " Ele fala sobre a importância dos registros das coisas quando são descobertas. " É assim que se faz arte, e é assim que você pode construir uma visão pessoal mais ampla."

A "Imagem espelhada" é um abordagem interessante representada pelo brasileiro Sebastião Salgado extraída de sua série Genesis, milhares de pinguins nas ilhas Sandwich do Sul, uma das ilhas vulcânicas do Atlântico Sul. Primeiro ele salienta a prevalência do preto & branco sobre a cor, no sentido de torná-la inusitada, argumentando que estas tonalidades reduzem as formas a padrões. Assim os animais equivalem visualmente às rochas ao fundo. Mas coloca em dúvida se isso seria o suficiente para transformá-la em algo interessante, além do fortíssimo senso de proporção de seu autor, jogando a resposta ao leitor. O lembrete é que o mundo - conforme percebido pelos nossos olhos- pode ser alterado pelo simples fato de ser fotografado.

> SÃO 66 TÓPICOS ilustrados por profissionais de méritos incontestáveis. Ecléticas posturas e épocas que vão do século XIX ao XXI. Autores como os americanos Paul Strand (1890-1976) [ leia mais sobre Strand no review do livro A poética de Paul Strand ( Edusp, 2012) de Regina Maurício da Rocha em http://blogdojuanesteves.tumblr.com/…/a-po%C3%A9tica-fotogr…], Richard Avedon (1923-2004), Garry Winogrand (1928-1984), Duane Michals o francês Édouard Boubat (1923-1999) e outros a caminho do cânone como a americana Melaine Einzig e o inglês Jonathan Smith que nos fornecem "perpectivas atraentes", mostrando "beleza no caos", encantamentos na "condição humana" e que "as coisas nem sempre são o que parecem ser."

> O MELHOR DE TUDO, é que Joel Meyerowitz, propõe realmente de uma maneira honesta e simples, "um olhar para o futuro." Compartilha sua longa experiênca de quase 6 décadas e imagens memoráveis e seus mais de 20 livros publicados. Pode até parecer um número pequeno, diante de alguns fotógrafos bestsellers que conhecemos até mesmo por aqui. Entretanto, diferente destes ele torna este seu pequeno Olhar! com suas pouco mais de 60 imagens em algo imensurável. Suas observações são valiosas e o seu compartilhamento profissional adiciona uma rara generosidade no meio. Ultrapassa a ideia de que são para crianças, se tornando uma excelente companhia a todos que desejam navegar por imagens em qualquer idade.

O livro, que tem cortes na capa e guardas, formando um olho, foi impresso na China, com o design original feito por Sonia Dyakova, do Atelier Dyakova, de Londres. Atende o mercado europeu e também brasileiro. Estará a venda em breve no link abaixo e nas boas livrarias.