Indicação do parceiro: Fast Food Cultural sobre o livro Street art

Por Paulo Carvalho- Desde as primeiras folhas do material que recebemos da Editora Gustavo Gili Brasil, eu percebi que aquilo que estava em minhas mãos era o que mais se assemelhava com o que tentamos pregar por aqui no Fast Food Cultural quase que diariamente, um conteúdo de qualidade, informativo, esmiuçado, com posicionamento político forte (voltado para as minorias), e que também fala de arte. Street Art – Técnicas e Materiais Para Arte Urbana é cultura crua, que trata todos em pé de igualdade, é pra mim, que não sabia lhufas e aprendi um monte, e pra quem já está há muito no meio artístico.

O conteúdo:

A GG acerta em cheio ao trazer para o Brasil, país que vive um momento político quente, em que uma parte da população quer se fazer ver, e outra quer manter seus privilégios, um livro que, além de trazer um passo a passo sobre como produzir arte desde a cola caseira, até instruções de como fazer acertos no Photoshop para atingir um estêncil ideal, entrevista uma série de artistas engajados e que usam seus métodos e o ambiente público, como forma de protesto. A arte de rua, na maioria das vezes ilegal e temporária, é o grito do artista que não é reconhecido, de uma comunidade que não é vista, de um povo que está sofrendo, é protesto contra o capitalismo que mata muito mais do que qualquer outro método conhecido de governo, é a luta contra o sistema que oprime, subjuga e mata quem não nasceu em berço de ouro, é a luta contra os prédios que expulsam e esmagam os pobres na favela, é uma forma de mostrar que essas pessoas ainda estão ali, marcando paredes, “estragando” elas, e aqui destaco uma frase, com uma informação repetida por vários dos artistas do livro, mas que achei mais completa nas palavras de Jack Napier:

Os outdoors, assim como alguns outros meios de comunicação visual, os cartazes colados nos trens do metrô e nos ônibus, por exemplo, são o único tipo de mídia que não nos oferece possibilidade de decidir se queremos encontrá-lo ou não. A publicidade é a linguagem da cultura nos Estados Unidos; na Europa também, embora em um nível um pouco menor. A única coisa que podemos fazer, então, é usar a linguagem da publicidade para dar nossas ideias a conhecer. Já que os outdoors ocupam o espaço que todos nós habitamos, eles devem ser de propriedade comum. Todo mundo deveria ter seu próprio outdoor e, por meio dele, poder se comunicar com o mundo.

A mensagem de Napier é basicamente martelada por cada um dos entrevistados do livro de Benke Carlsson e Hop Louie, ela assume diversos sentidos, tem amplitudes diferentes, mas ao final quer dizer uma mesma coisa, é a mesma revolta com um sistema que é excludente e nos invade sem pedir licença. Napier, por exemplo, faz alterações sensacionais em outdoors (adbusting/subvertising), de maneira a reproduzir fontes, ou fazer colagens, recortando, alterando, remontando, mutando a mensagem original, fazendo, assim, com que o outdoor muitas vezes critique a própria marca que deveria estar ali (ou a sociedade que a consome sem pensar).

Mas não é só política que habita o excesso de cultura contido nas páginas de Street Art, o livro, como propõe, traz, também, arte (pasmem), e aborda os métodos artísticos contidos nele de forma tão completa que poderia certamente fazer parte daquela série de livros “para leigos”, até porque em inglês o livro recebe a titulação complementar de “Cookbook”, e ele é, definitivamente, um livro de receitas para artistas de rua (ou aqueles que almejam ser). Te diz onde ir, o que usar, que marca comprar, quando precisa e não precisa gastar mais (especialmente quando não precisa gastar mais), como fazer, quantas pessoas são necessárias para realizar a tarefa, quais programas e equipamentos serão necessários, e tem até dicas de como lidar com os passantes e com a polícia (fuck the police!). Alguns dos entrevistados deixam até receitas de comidas para encher a barriga de quem está saindo para trabalhar em muros, placas, outdoors, camisetas, jardins, etc.